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sexta-feira, 13 de abril de 2018

A Mulher Negra

Olá, boa noite.

De todos os azares que existem, raramente lembramo-nos deste: ficar na miséria. Ficar pobre, perder tudo - até perder a consciência do que se perdeu. Todos nós estamos a um passo da loucura, e da miséria; cabe à nossa postura manter o rumo. Mas como sabemos que o rumo que escolhemos não nos levará a perder tudo aquilo que construímos e ambicionamos na vida? Não sei a resposta.

No dia em que fiz um passeio pelos Miradouros e zonas da cidade que não conhecia, que vos tenho mostrado nas últimas semanas, resolvemos parar para ir beber algo fresco e aproveitar uma esplanada da moda visto que, o almoço trouxemos de casa, e sabia bem uma pausa gourmet!
Fomos então parar ao requalificado Intendente, à esplanada do Infame, pertencente ao hotel 1908.
Na esplanada do Infame, uma Coca-Cola e um sumo de Laranja Natural
A esplanada estava repleta de turistas e tugas armados em turistas (como nós). Parámos, vimos a ementa e, visto que o menu não é propriamente barato, ficamos pelas bebidas (o meu sumo de laranja natural, custou 3,50€ e, de natural, sabia-me pouco). Enquanto conversávamos sobre trivialidades, chegou-se à esplanada uma mulher. Preta de cor. Com maneiras simples. A pedir comida ou dinheiro.

Reparámos nela, visto que tinha começado pelas mulheres que vemos na foto. Aproximou-se então de nós. Estava acompanhado por um casal que, quando esta chegou-se a nós, ele quis oferecer o que tinham no menu para comer (uma tosta mista com salada) e um um sumo de laranja natural. Ela então sentou-se na mesa que vemos na imagem, na cadeira em que nas costas está a garrafa Contour. Reparámos no desconforto das restantes pessoas. Ela também. Mostrou-se reticente em sentar-se mas, após lhe garantirmos que ninguém a expulsaria dali, acabou por ceder. Enquanto esperávamos pela tosta, ela falava. Falava alto. Falava sobre tudo, mas comecemos pelo início.

Começou por relatar a forma como era mal tratada pela gerência daquele local, e que era enchutada de lá. Bom, de facto, os funcionários e, particularmente o gerente, detestou que ela estivesse sentada na esplanada. Depois, nós queríamos voltar à nossa conversa, mas eu não conseguia: ela estava mesmo na minha direcção e, acabava por ser o seu receptor. Visto que a tosta estava a demorar, garantimos-lhe que não íamos embora, sem antes ser servida. Agradeceu e começou a elogiar os meus pais (não eram os meus pais, naturalmente, mas ninguém desmentiu). E começou a relatar a sua história de vida. E eu? Bom, eu estava a ouvi-la, e a encontrar parecenças entre a vida dela, e a minha.

E havia tantas. Tantas semelhanças. A sua história, nem sempre batia certo, mas dava para ter uma ideia. Não sei se ela falava verdade ou não... na realidade, não importa. É uma história de vida que, se não fosse a dela, podia certamente ser a minha. Pelo que parece, tinha uma vida de classe média em São Tomé e Príncipe e veio para Lisboa estudar. Por peripécias familiares e de amigos, veio parar à rua. Durante os longos minutos (diria uma meia hora), iam aparecendo pessoas que ela conhecia e, gabava-se, por estar ali sentada e que ia comer ali onde estava, por oferta "deste casal tão simpático", dizia ela. Quando um deles começava a pedir, ela mandava-o embora, a dizer que ali já tinham sido muito generosos com ela. Na realidade, ela não sabia, mas estava a ser muito mais generosa do que nós. Porquê?

Em toda a história de vida desta mulher, havia algo de que ela se arrependia: de não ter estudado mais. Tinha saudades de uma só pessoa, da sua mãe. Tal como eu tenho da minha. Tenho saudades da minha mãe que está viva e todos os dias a vejo. Tenho saudades do que iremos viver juntos. E tenho saudades já, de quem me fará mais falta neste mundo. Apesar de às vezes andarmos às turras, amo-a.

A história desta mulher, fez-me encher os olhos de lágrimas, mas não cheguei a chorar. Estava de facto, a ouvi-la. Estava, a ouvir-me. As palavras dela, ecoavam na minha cabeça, como algo que deveria registar para sempre, e nunca esquecer. Na esplanada, a gerência "gozava" com ela, dando prioridade aos outros clientes (e isso foi confirmado por nós, "ordens da gerência"). Lá veio, finalmente, a tosta mista. Ficou espantada por, afinal, ser verdade o que lhe tínhamos dito. Passou mais um amigo dela e, deu um pouco da sua tosta mista, a esse amigo: "Temos de partilhar", dizia-nos enquanto dividia com as mãos a tosta ainda quente. O Amor daquela mulher, estava assim dividido por todos os seus amigos que ali passaram. Eu, acho, que tive a sorte de ficar com umas migalhas da sua generosidade. Aquela mulher, era de facto alguém extraordinário! Que sorte a minha!

E ali ficava eu, a ouvi-la todo o tempo. De uma meiguice, de uma simplicidade e de um olhar... um olhar cheio de saudade, amargura, mas acima de tudo: de amizade.

Fomos então embora, deixando-a comer. Ela quis então despedir-se de nós. A minha "mãe" recusou o convite. Então ela disse que eu não podia negar-lhe dois beijinhos. E aqui o tempo parou. Não o dela, mas o meu. O que fazer?! Dar dois beijinhos ou recusar? Não sabia o que fazer. Foi uma eternidade. Uma decisão difícil. Por um lado, o nojo de estar em contacto com uma sem abrigo e, por outro, a minha coerência enquanto alguém que aprendeu tanto com a generosidade de outra pessoa e que, em troca, apenas pedia dois beijos. Não sabia o que escolher. Não queria escolher. Mas também, não podia recusar.

Então fui. Pus um sorriso na cara, e fui ter com ela. Dei-lhe dois beijinhos e desejei-lhe uma boa refeição. Antes de sair, ela agarra-me no punho e diz "Cuida da tua mãe". Agradeci e fomos embora, com um aceno de alguém que sempre se conheceu, e na verdade sim: de nós mesmos.

Aquela mulher faz agora parte de mim. Partilhou comigo a sua vida e, eu, tenho o dever de aprender com ela. E sim, aprendi. Penso nesta mulher com frequência, acima de tudo, do seu sorriso.

Neste dia dos azares, não nos esqueçamos do maior azar que nos pode acontecer: perder tudo. Mas há sempre algo que devemos reter: por mais que percamos, nunca devemos deixar para trás o Amor.

Porque esta história repete-se tantas, e tantas vezes. Connosco, Elza Soares.




Beijinhos e portem-se mal!! ;)