Em Setembro: MOTELX lê as entrevistas EXCLUSIVAS aos realizadores São José Correia (Portugal), John McPhail (Escócia) e Yann Gonzalez (França)! =D

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

São José Correia

Olá!

Entrevistei, pessoalmente, a portuguesa São José Correia, realizadora de "Coração Revelador" - uma curta-metragem de Terror portuguesa! A entrevista aconteceu aquando da 12.ª edição do MOTELX - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, que se realizou no Cinema São Jorge.

Visto que a língua de conversação foi o português, resolvi não traduzir o que foi dito (quem não está à vontade com a língua, basta ir ao canto superior direito do blog, ao "Translate", e seleccionar a língua mais conveniente). A entrevista, foi gravada por meio digital, e foi totalmente transcrita assegurando assim, a naturalidade de uma conversa que durou mais de 30 minutos onde, claro está, foi uma enorme honra para mim puder fazer todas as perguntas que tinha planeado, e ter respostas genuínas!
A actriz, realizadora e argumentista portuguesa, São José Correia
Lisboa, 9 de Setembro de 2018, no Cinema São Jorge.

Adolescente Gay: Para quem não te conhece, como te descreves?
São José Correia: Olá, eu sou a São, sou a São José - é o meu nome artístico -, eu sou atriz e... desde os últimos anos, experimentado a área da realização (com a adaptação de alguns textos), e porque sou fascinada por alguns actores, gosto muito de dirigir actores, e por isso tenho estado a experimentar a realização. Também gosto muito do género de terror, sou espectadora assídua do Festival do MOTELX, já a algum tempo e... sempre quis ter uma curta-metragem - aliás, sempre quis ter uma longa, mas é muito mais difícil [risos] - no MOTELX e, este ano, consegui concretizar este projecto, que já tinha a algum tempo, que é o "Coração Revelador", um conto do Edgar Allan Poe, e este ano estou aqui em competição!

AG: Que é excelente a curta! É excelente!...
SJC: Obrigada! Obrigada!

AG: Mas como foi a tua infância? Passaste por Almada, penso eu...
SJC: Sim sim sim... Os meus pais são da ilha da Madeira; eu fui feita na ilha da Madeira, e vim nascer a Lisboa, à Maternidade Alfredo da Costa, como...

AG: ...como todos nós! [risos]
SJC: ... como todos nós! Exacto! [risos]. Desde há 40 anos, todos os bebés de Lisboa, nascem na Maternidade Alfredo da Costa, e vivi em Almada. Os meus pais viviam em Almada, vivi em Almada durante muito tempo, só saí de Almada por questões mais profissionais porque, como sabes, eu sou actriz, faço muitas novelas, e os estúdios são todos deste lado e, sabes, que atravessar a ponte diariamente é muito problemático; então, numa dada altura, decidi instalar-me em Lisboa, e vivo em Lisboa há mais de 10 anos!

AG: Nessa altura, na tua infância, já querias ser actriz?
SJC: Não não não... esse desejo, surgiu só na adolescência, aí por volta dos 16/17 anos...

AG: Então querias ser médica, advogada...?
SJC: Queria ser advogada!

AG: Advogada?
SJC: Queria, queria ser Advogada! Queria... claro, que depois raciocinei um pouco sobre isso, eu acho que queria ser advogada, um pouco influenciada, pelos filmes que nós víamos americanos! Porque os filmes americanos é que têm aquela coisa dos advogados falarem para a plateia, não é?! Do júri... e eu lembro-me de assistir a muitos filmes desses, não tenho assim nenhuma referência em particular para te dar,  mas eram aquelas séries de televisão, que havia muito na altura. E eu acho que foi um bocadinho essa influência... por isso é que eu achava que queria ser advogada - porque adorava aquelas pessoas, com aquele discurso para a plateia, etc! E depois, um bocadinho mais tarde, assisti a uma novela que também influenciou-me bastante, que era - não sei se te lembras, és capaz de ser muito novo para te lembrares dessa novela -, a "Selva de Pedra", que era com a Christiane Torloni e com a Marília Pêra, que foram duas actriz que me marcaram muito. E eu lembro-me de ir para escola, e estar completamente obcecada...

AG: Então foi aí que começou o "bichinho"?...
SJC: Sim! A um nível inconsciente! Depois, já com alguma consciência, foi quando fui ter aulas de Teatro, como opção na escola. Porque eu assisti às aulas da minha irmã, que também tinha Teatro como opção, e houve um dia que eu assisti ás aulas dela e, foi uma aula, em que eles fizeram um exercício de concentração, e eu também fui convidada a fazer/participar no exercício, e fiquei completamente fascinada. Pronto, e a partir daí, foi o Inferno... [risos]!

AG: Só para encerrar a parte da "advogada": depois não quiseste investigar mais sobre a área, comprar uns livros...?
SJC: Não! Seria incapaz digo-te, hoje em dia, ser advogada, ou juíza, ou qualquer profissão sobre a qual a vida das pessoas dependa, ou que tenha uma grande decisão sobre a vida das outras pessoas. Seria incapaz!

AG: Achas que também, ser actriz, não é igual? Não influencia a vida das pessoas?
SJC: Não! Influencia, mas é sempre pelo bem! E, quando influencia, é pelo bem. Eu sei, por exemplo, há uns anos atrás, no espectáculo que fiz com a "Escola de Mulheres", conheci no final do espectáculo, uma menina que estava a ver o espectáculo com a mãe, e no fim esperou para falar comigo, muito emocionada, e que dizia que queria ser actriz, que me adorava e tal... Ela, hoje em dia, é actriz! Ou seja, eu influenciei-a... para o bem, sempre para o bem. Um actor, acho, que a influência que tem sobre os outros, é para o bem e não para o mal.

AG: Como te sentes com o facto, de saberes que ela hoje em dia, é actriz?
SJC: Ohh muito bem! Com muito orgulho! Dá um certo orgulho, em saber que de alguma forma influenciei alguém, a encontrar-se, não é?! Porque ela encontrou-se, ela é actriz...! Não é actriz por minha causa, como é evidente, ela é actriz porque nasceu com esse "bichinho" e, depois, foi seguindo as pessoas que ela gostava e que a influenciaram de alguma maneira, e eu sou uma delas...

AG: Como te sentes ser ídolo? Dessa rapariga, e de outras mais... e minha!! Também gosto muito de ti!
SJC: Obrigada, obrigada! Sinto-me muito bem, sinto-me muito bem... dá-me muito orgulho, sinto-me muito bem... [sorri]

AG: Não te trás uma responsabilidade...?!
SJC: Não não não, nesse sentido não. Trazer felicidade às pessoas, e prazer às pessoas, é bom, não é uma responsabilidade, não é um peso aos meus ombros... não, não é, pelo contrário!

AG: És feliz naquilo que fazes?
SJC: Muito feliz naquilo que faço!

AG: Então voltando ao secundário: quiseste ser actriz. Estudaste? 
SJC: Sim, teatro!

AG: Onde?
SJC: Na Companhia de Teatro de Almada. Fiz o curso profissional da Companhia de Teatro de Almada, porque não tive possibilidades de ir para o Conservatório. Mas, a Companhia de Teatro de Almada, na altura, abriu um curso de formação de actores. Eu fiz o curso, contrataram-me, e fiquei a trabalhar na Companhia 10 anos! [risos]

AG: Em Almada!
SJC: Em Almada! Na Companhia de Teatro de Almada, dirigida pelo Joaquim Benite, que hoje em dia, já não se encontra connosco, e fiquei 10 anos a trabalhar na Companhia. Depois convidaram-me para fazer televisão, e aí tive que deixar a Companhia, porque a televisão não me permitia... e também precisava de outra experiência, que me fez muito bem, fez-me crescer imenso enquanto actriz!

AG: Durante esses 10 anos, o que mais te marcou?
SJC: Tanta coisa! Tanta coisa! Tanta coisa me marcou!... Sobre tudo ver os outros! Sabes, hoje em dia já não é tanto assim mas, os ensaios com o Joaquim Benite, por exemplo, toda a gente assistia aos ensaios, do princípio ao fim! Ou seja, hoje há muito aquela coisa que é "Ok, há dois actores, que entram numa cena, os outros todos estão dispensados, e vamos só trabalhar com estes dois actores". Na Companhia, não era assim. Apesar de se passar uma tarde inteira a trabalhar só uma cena, todos os outros actores do elenco assistiam aos ensaios. Eu, aprendi muito, a assistir aos ensaios, a ver os outros trabalhar!
Os actores que mais me marcaram na vida, como é óbvio, foi a Teresa Gafeira, que foi a minha primeira encenadora a nível profissional, que a vi a fazer trabalhos extraordinários! Um dos trabalhos dela que me marcou, foi precisamente os "Dias Felizes", de Beckett, que foi um dos primeiros textos que eu li em teatro, nesse curso, com José Vieira de Lima na aula da Dramaturgia! Nós estudamos os "Dias Felizes", de Beckett, e eu lembro-me que na altura, nem conseguia ler aquilo, porque era de tal maneira difícil, pelas didascálias, com imensas didascálias, com o texto... e para mim aquilo era um quebra-cabeças tremendo! Eu não como era possível interpretar aquela mulher, a Winnie, e de repente, vi a Teresa Gafeira, fazer os "Dias Felizes"... e esse foi um momento que me marcou bastante na minha carreira! Tenho uma admiração enorme pela Teresa Gafeira, é a minha grande referência, de sempre!
Outro dos grandes momentos que me marcou, muito difícil para mim, foi ter feito a Yvette Pottier, da "Mãe Coragem", de Bertolt Brecht! Foi um trabalho muito difícil, e foi último trabalho que fiz com o Joaquim Benite, foi a última encenação em que estive dirigida por Joaquim Benite... portanto também foi outro grande momento na minha carreira! Tive vários momentos... como deves calcular, 10 anos assisti muita coisa...

AG: Tens saudades desse tempo?
SJC: Tenho! Tenho... às vezes dá-me saudades daquele tempo, sim! Dá-me saudades de ter uma família, de ter uma Companhia de Teatro, de pertencer a um grupo de Teatro...

AG: Achas que hoje em dia, faz falta às pessoas, assistirem ao ensaio também dos colegas...?
SJC: Sim! Acho que é muito importante! E hoje em dia já não se faz isso, e é pena. Acho muito importante! As pessoas já não têm paciência de assistir ao trabalho dos outros, e eu acho que assistir ao trabalho dos outros, é aprender muito! Mas hoje em dia... não. E tenho pena sim, tenho pena!

AG: E como surgiu o convite para a televisão?
SJC: Foi porque houve uma realizadora, a Marie Brand, que ia fazer um tele-filme, daquela série de tele-filmes que a SIC começou por fazer, e ela ia fazer um tele-filme, e precisava de uma protagonista, conheceu...

AG: Isso foi em que ano?
SJC: Ahh.... Eu fiz o filme em 2001! E a Marie Brand estava a trabalhar com o Zé, que era um rapaz que fazia castings com Patrícia Vasconcelos, e o Zé, era muito amigo de uma jornalista que ia muitas vezes assistir às peças da Companhia e, era também convidada, a assistir a alguns ensaios. E, eles, quando foram assistir a um ensaio da "Mãe Coragem", precisamente, eles gostaram muito da minha cena, e pediram-me para filmar e, o Zé filmou a minha cena. Mostraram à Marie Brand. E a Marie Brand, chamou-me para casting. Eu não pude ir para casting, porque estava a trabalhar, mas ainda assim, ela gostou tanto de ver a cena, e da peça, do ensaio, que me contratou! E pronto, eu fiz o tele-filme, outras pessoas viram o tele-filme, e convidaram-me para fazer uma novela, na TVI. A minha primeira novela, foi o "Último Beijo", com Pedro Lima, o Filipe Ferrer ainda - era o meu pai-, a Manuela Couto, etc, um elenco também extraordinário! E foi assim que comecei, que passei do teatro para a televisão.

AG: Gostas de fazer novelas?
SJC: Gosto! Sim, gosto! É muito cansativo, é muito torturante, mas... também faz falta, porque dá-te outras coisas que o teatro não tem. No teatro tens o tempo. Com o tempo podes estudar muito lentamente os papéis, ensaiamos muitas vezes... e a televisão não. A televisão traz-te uma rapidez, tens que ser rápido, tens de ter um trabalho de casa muito bom porque depois, no plateau, é tudo muito rápido, ou seja, não há muito lugar para dúvidas. Portanto, isso exige de ti, um trabalho de casa muito maior, para estares preparado no dia seguinte.

AG: Não é... ingrato?
SJC: É, é ingrato é. É muito ingrato. Mas quase tudo na vida é ingrato... [risos]

AG: Como por exemplo...?
SJC: Olha, como por exemplo: fazeres um espectáculo, ensaiares durante um mês e meio, e depois só fazeres quatro espectáculos - hoje em dia, às vezes, as carreiras de espectáculos, são muito curtas. Dantes, quando estava na Companhia, estreávamos um espectáculo, e ficávamos um mês e meio/dois meses em cena. Hoje em dia não. Hoje em dia, fazes dois fins-de-semana, e acabou-se o espectáculo.

AG: Porque é que isso acontece, na tua opinião?
SJC: Não sei. Não sei exactamente explicar porque isso acontece...

AG: É porque o público não vai?
SJC: Não...! Acho que também tem a ver com os subsídios, com as salas... Não sei bem, isso é um problema maior do que eu. Isso já mete um pouco política e eu, sou um pouco, apolítica. Não gosto muito de discutir essas questões porque... porque há muita coisa em jogo, e nunca é só uma questão, não é?!

AG: Achas que não é pelo público? Isto é, achas que o público iria?
SJC: Eu acho que sim! Eu acho que há público para teatro, ao contrário do que se costuma dizer, eu acho que há muito público para teatro.

AG: Fizeste novelas, e muitas séries. Tiveste na TVI muito tempo, na RTP, estiveste inicialmente na SIC... 
SJC: Sim sim, inicialmente estive na SIC, com um tele-filme, exactamente!

AG: Como é, para ti, trabalhar nas várias estações, a nível de aprendizagem? Penso que tenham diferentes formas de trabalhar...
SJC: Hmmm... é difícil explicar isso em poucas palavras! Mas, acho, que isso traduz-se naquilo que sou hoje! Por exemplo, acho que esta vertente minha, na realização, tem um pouco a ver também com a minha insatisfação, no nosso panorama actual, não é?! Como tu disseste e bem à pouco, a televisão é um pouco ingrata. Por um lado, tem aquela coisa boa, que te obriga a estar muito atenta, e a trabalhar muito em casa, mas depois, não te deixa aperfeiçoar ... porque é muito rápido! Tu gravas uma cena... gravas uma vez, no máximo gravas duas, não tens "ah não, 'pera aí, que aqui podia melhorar", não, não podes melhorar, porque temos de gravar mais vinte cenas nesse dia, e não tens como melhorar. Portanto, nesse sentido, podes desenvolver muito as coisas, mas deixa-te sempre um bocadinho com... sede, de outras coisas! E, talvez, esse processo ao longo deste tempo todo, tenha-me levado a fazer outras coisas, dentro da minha área!...

AG: Então, realizar, é um "Grito do Ipiranga"?
SJC: [risos]

AG: É um grito de revolta? Um chamar de atenção?
SJC: [risos] Não não, não é um chamar de atenção, é...

AG: Não, para ti própria!
SJC: Ahh sim, para mim própria!...

AG: Uma forma de te expressares!
SJC: É mais uma forma de me expressar, de me concretizar enquanto pessoa, e enquanto "ser criador", não é?! Porque a novela mata um bocadinho, a televisão mata um bocadinho - esse nosso lado de ser criativo! Parece que somos uns papagaios, que levamos um texto para saca, decoramos um texto, chegamos ali, despejamos o texto, voltamos para casa, decoramos mais texto, chegamos ao dia seguinte... e há esse mecanismo, que é um bocado "triturante"! E eu pronto, tenho necessidade de mais! E realizar, dirigir outros actores, escolher os meus textos, fazer as coisas à minha maneira, com o meu grau de exigência, sim... é um "Grito do Ipiranga" talvez, sim, talvez possa dizer isso, sim! É uma forma de me concretizar! De acreditar em mim, enquanto "ser criador" que sou - eu não sou apenas uma interprete, não sou apenas um papagaio que diz umas palavras que outros escrevem - sou um "ser criador", crio universos.

AG: Sentes-te pouco valorizada no meio?
SJC: Acho que nos sentimos todos, de alguma maneira, pouco valorizados! Eu acho que é um mal geral... [risos] De qualquer maneira, também por outro lado, sinto-me muito grata por conseguir concretizar os meus projectos!

AG: Esta é a tua segunda curta, primeira de terror, e voltando ao "Grito do Ipiranga"... estás num meio de terror?! Tem aí alguma mensagem subliminar?!...
SJC: [risos] Não não não, de todo!

AG: Então porquê o autor? Porquê este conto, especificamente? Porquê estes actores?
SJC: Primeiro, porque eu costumo ler! [risos] E o Edgar Allan Poe, é um autor que está na minha cabeça, desde a adolescência - porque o meu irmão, tinha um livrinho de contos lá em casa, e portanto...

AG: "Os Contos Fantásticos"!
SJC: "Os Contos Fantásticos" alguns: "O Gato Preto", "O Escaravelho Dourado", etc. E portanto, o Edgar Allan Poe, é uma figura do meu imaginário, desde sempre. E voltando há  dois ou três anos, saiu uma compilação de todos os contos de Edgar Allan Poe, que eu comprei. E, e de vez em quanto em casa, vou lá, leio um - não leio todos de seguida, como é óbvio, ainda por cima são imensos -, de vez em quando vou lá, leio dois ou três, e ponto, há dois anos trás, houve um dia que fui ler, e li este "Coração Revelador"... épá, e tive uma visão! Deu-me vontade, e achei que era possível filmar este texto, e convenci-me disso (e trabalhei para isso)!
O actor. Há dois anos trás, não pensei no Rui Neto, pensei noutro actor, mas que não foi possível com esse actor; depois, ainda ensaiei com outro actor... depois, mandei abaixo o projecto, não filmei, porque era para ter filmado há dois anos, mas depois não filmei, porque fiz muitas asneiras, e tive que mandar o projecto abaixo...

AG: Asneiras...?
SJC: Asneiras, erros meus. Cometi muitos erros. Como por exemplo, achava que fazendo o texto todo, dava 15 minutos e.. não! Porque eu lia o texto sempre muito sôfrega, e achava que aquilo era num instantinho, o texto para mim passava num instante, e quando me apercebi, o texto não passava nada num instante! Se eu fizesse o texto todo, seria bem mais de meia hora, percebes?! E depois deparei-me com esse problema. E depois também a nível de material: de imagem, e de iluminação (tive vários problemas). E pronto, mandei o projecto abaixo. Porque para fazer mal, prefiro não fazer.

AG: Ok...
SJC: E este ano, conheci dois produtores, que viram a minha outra curta, e quiseram saber de mais projectos meus. Eu disse-lhes que tinha este projecto, eles interessaram-se, e ajudaram-me a produzir. E, entretanto, convidei o Rui, o Rui Neto, para fazer o filme, ele aceitou e... aqui estamos!

AG: Porquê o Rui Neto?
SJC: Porquê o Rui Neto? Porque o Rui Neto, tem um grau de qualidade, um grau de exigência, no trabalho dele, muito muito grande! Eu costumo trabalhar com o Rui em teatro, normalmente é ele que me dirige em teatro, e eu quando pensei: "Bom, com quem eu posso falar, com quem é que eu me entendo sobre o que é representar, o exercício do actor...?". E surgiu o Rui, e de facto o Rui, tem esse nível de exigência que eu tenho, E fiz bem, foi uma grande aposta, foi uma aposta ganha, porque ele é brilhante! Foi de uma dedicação extraordinária, apaixonou-se imediatamente pelo texto, e trabalhamos afincadamente duas semanas, todos os dias (na primeira semana em minha casa, a segunda semana já em minha casa e no décor)... e saiu este trabalho maravilhoso!

AG: Quando tempo demorou a gravação?
SJC: Filmamos em dois dias.

AG: Referes que gostaste muito de trabalhar com o Rui, o que faz gostares tanto de trabalhar com ele?
SJC: A sua inteligência. A sua bondade. E o seu talento.

AG: Nota-se isso! Eu vi a curta e, de facto, é fantástica! Como já disse, eu vi a curta, já te dei os parabéns pela mesma, reforço, é a minha preferida, e é, para mim, a vencedora! Espero que hoje à noite, seja a grande vencedora, vamos torcer que seja... Em relação à luz, guarda-roupa: porquê não fazer este conto, mas em versão moderna? Porquê fazer em versão antiga? Porque tudo isto?
SJC: Porque eu gosto muito desse universo, e achei que devia ser fiel ao autor. Em termos de texto, não achei que devia modernizar, porque o Poe, tem um lugar muito especial na escrita, e pela forma como escrevia. Ele era muito erudita. Aliás, ele era crítico literário. E a escrita dele, está impregnada do prazer da palavra. A forma como ele escolhe as palavras, a forma como ele constrói as frases, tem muito a ver não só com semântica, como é óbvio, mas também com a fonética. Se leres um texto do Poe, em voz alta, vais perceber que é cheia de vida, cheia de cor, as palavras que ele escolhe são determinantes para a beleza do texto!
Se eu modernizasse o texto, se eu dissesse "fechadura da porta", em vez de "aldraba", se eu mudasse o...

AG: O guarda-roupa!
SJC: O guarda-roupa, se eu mudasse tudo... eu acho que ia perder, esse lugar do Poe. O que ele escreveu, e o universo do Poe! E portanto, decidi não perder, e não mudei rigorosamente nada.

AG: Qual foi a maior dificuldade que tiveste, na concretização deste projecto?
SJC: Dinheiro! [risos]

AG: E o que mais te deu prazer? Pode ser uma coisa simples... um momento...
SJC: Oh meu querido, não vás mais longe: é o resultado! E ter a equipa comigo... Por exemplo, um momento: quando nós fizemos o primeiro take, eu decidi que o primeiro take era o plano mais aberto, e eu tinha pedido do Rui, que no primeiro plano faria do mais largo, e depois ia apertando (como viste, o filme começa com um plano muito apertado), portanto, eu comecei ao contrário, comecei pelo mais largo, médio, médio ainda mais pequeno, e muito apertado; e eu tinha pedido ao Rui, que no primeiro take - no mais largo -, eu queria que ele fizesse o texto todo, seguido, sem paragens (e ele disse que sim, claro, aliás, trabalhamos para isso, para ele fazer o texto todo, como fosse uma peça de teatro). E pronto, preparamos tudo, dei o acção, eu estava no quartinho ao lado, com o monitor, com a minha anotadora, com a Ana Silva, e com o electricista, estávamos os três e os outros, estavam na sala, onde se estava a passar a cena; eu dei acção, o Rui faz o texto todo - ninguém sabia o que ia ver, como é óbvio -, eu dou corta, e veio a equipa toda para a minha sala, o director de fotografia, vieram todos para a minha sala, todos com a mão na cabeça, "Uhau!!!!",  "Mas o que é isto?!", "Mas é impressionante!", "Mas quem é este actor?", "Mas o que é isto?!", "Bem, estou arrepiado!"... e aí, ou seja, foi aí que eu percebi que "Ok, conquistei a equipa, conquistamos a equipa", a equipa estava completamente rendida à nossa história, e ao que nós queríamos filmar... Foi um momento marcante, foi mesmo um momento marcante, em que eu percebi que "Ok, tenho a minha equipa na mão!", porque é muito importante, porque às vezes nós estamos numa equipa, estamos a ver os colegas a trabalhar, e pá sabemos que aquilo não está bem, que falta qualquer coisa, está mais ou menos, sabes?! Ter a tua equipa, em peso, ao pé de ti, a dizer "Fogo!", "Impressionante!"... sabes que ganhaste a equipa!

AG: E também ganhaste, quem assistiu no dia 5...
SJC: Exactamente, espero que sim, espero que sim!

AG: És altamente reconhecida, como te sentes em relação ao meio dos prémios? É muito difícil... Hoje espero, sinceramente, de coração, que ganhes mas... é muito difícil em Portugal! Não estou a dizer que o jogo está viciado, mas... há tantos actores!...
SJC: Sim... Eu não ligo muito aos prémios, porque os prémios, quanto mais importantes são, mais políticos são. Mas, eu na verdade, eu não me posso queixar: há uns anos, com o filme "O Inimigo sem rosto", de José Farinha, ganhei, pela GDA (que é o prémio de actores, são actores que dão aos outros actores), ganhei o Prémio de Melhor Actriz Secundária com esse filme, que foi um grande reconhecimento para mim, dos meus pares! Imagina, o prémio foi-me entregue pela Isabel Ruth, imagina o prazer que foi para mim, receber o prémio das mãos da Isabel Ruth. E, o ano passado, recebi o Prémio de Melhor Actriz em Televisão, com a "Santa Bárbara", com a "Antónia", portanto...

AG:"Santa Bárbara" foi... a "Antónia" era... era incrível, era incrível!!
SJC: [risos] E ganhei o Prémio do Público de Televisão!

AG: Eu sou fã! Eu tinha inveja, não é?! [risos]
SJC: [risos] A inveja boa, não é?!

AG: A inveja boa, enfim, do teu empregado, do... 
SJC: Ahh, do "Macário"?! [risos]

AG: Sim! Tua nesse sentido, do "Macário"! [risos]
SJC: O "Macário", o fantástico "Macário", o meu querido Luís Gaspar! É fantástico ele, sim, é fantástico! Que também devia ter recebido um Prémio...

AG: Mas foi óptimo ele!
SJC: É. Claro que os prémios são reconhecimento, como é óbvio...

AG: É um marco!
SJC: É, sim, claro. Mas também fazem parte. Por exemplo, esta história, como outro dia me perguntaram, "Quais são as tuas expectativas no Festival?", eu não vou mentir, não tenho falsas modéstias ouve lá, eu estou em competição, eu adorava ganhar! Eu não estou como alguns colegas meus, que disseram, "Ahh, eu sei que não vou ganhar, não é para ganhar.". Não, eu estou nisto para ganhar! [risos]

AG: Claro, é para ganhar!
SJC: Mas se não ganhar, também está tudo bem! Amigos na mesma, não tem mal, percebes?!

AG: Mas estás cá para ganhar!...
SJC: Óbvio...

AG: Próxima questão. Esta pergunta... tenho que te fazer...
SJC: Sim, faz.

AG: Tem havido, nos últimos tempos...
SJC: Sim...

AG: Ahh... diversas informações... 
SJC: Sim...

AG: A teu respeito... ahhhh... menos...
SJC: Sim...

AG: Simpáticas para contigo...
SJC: Não tenhas tantos pruridos! Fala à vontade!

AG: Não, mas eu tenho, porque...
SJC: Por respeito, claro, sim...

AG: Ahh... o que queres... comentar...?
SJC: Nada querido, nada. Não quero comentar nada. Não sei se queres falar de alguma coisa especificamente...

AG: Não...
SJC: Surgiram várias notícias ..

AG: É muita coisa...
SJC: Sim, mas não faço nenhum tipo de comentário. Eu só falo com pessoas boas, não falo com pessoas más. [sorri]

AG: Mas... magoa-te?
SJC: Sim, claro. Magoa-me porque são mentiras, tu nem sequer percebes de onde vêm, e que têm uma grande maldade. Porque estas coisas, não saem só porque sim, não é?! Portanto, há aí alguém, que me quer fazer mal mas... eu tenho mais pessoas que me querem fazer bem, portanto...

AG: Futuro! Vamos falar sobre o futuro!
SJC: Sim!

AG: Depois desta curta, que vai ganhar!... Esperamos nós, que vai ganhar!
SJC: [risos]

AG: Futuro?
SJC: O futuro? Estou na nova novela da TVI, que é "A Teia", eles já começaram a gravar, eu começo a gravar para a semana, e estou com um espectáculo. Convidaram-me, o Teatro de Praga (uma Companhia de Lisboa), convidou-me para um espectáculo, e vamos estrear dia 1 de Novembro, no Nacional, no Teatro Nacional.

AG: Então, duas questões. A novela da TVI, que vai começar, o que podes dizer sobre...
SJC: Ainda nada querido, ainda nada. Ainda não podemos, ainda não podemos divulgar nada.

AG: Muito bem. 
SJC: É muito cedo, é muito cedo ainda.

AG: Mas estás feliz?
SJC: Estou, muito!! Muito feliz, claro!

AG: E também com o espectáculo que vai estrear em Novembro, o que podes contar?
SJC: Posso contar-te que é uma comédia, chama-se "Worst Of", e tem a ver com a dramaturgia portuguesa, e é uma comédia comigo, com elementos do Teatro de Praga, o André Penim, a Cláudia Jardim, Rogério Samora, Márcia Breia, Vítor Silva...

AG: Grandes nomes! Vai ser incrível!
SJC: Sim sim sim, espero que sim, pelo menos vai ser divertido!! [risos]

AG: Como é que tu vês, actualmente, a situação de Portugal, a nível de tudo: a nível da cultura, a nível político, os turistas (há muitos turistas!), o que te apraz dizer a respeito, do teu Portugal?
SJC: Eu gosto muito do meu Portugal. Acho o meu Portugal muito bonito, eu gosto muito de viajar, este ano também consegui fazer duas viagens: estive na magnifica Grécia, e estive em Liverpool, e... quanto mais viajo, mais gosto do meu país. A sério. Claro que, em termos de cultura, somos uns desgraçados, temos um Governo que gasta menos de 1% na Cultura, e que acha que nos faz um favor. Acham que dar um subsidio, acham que é um favor que nos estão a fazer. E não é. Ou, pelo menos, não deveria ser. Há um desafio, que eu lanço às vezes, já em várias entrevistas lancei, que é: Eu gostava, todos os teatros fechassem durante um mês, todos os teatros de Lisboa fechassem durante um mês, para percebermos, de facto, que falta fazem à população ou não. Acho que a população se iria revoltar, uma vez por todas, porque há a tendência "ahh, não há público para Teatro", é mentira! Há público para teatro! Se fores ao Nacional, está cheio. Estreia um espectáculo no Nacional, se tu demorares a comprar bilhetes, tu não tens bilhetes! Se fores ao São Luiz, a mesma coisa. Se fores ao Meridional, que é Lisboa Oriente, tens os espectáculos esgotados! Sabes... há público para Teatro! E é um bocado triste, que tenhamos um Governo... aliás, o anterior, até tirou o Ministério, tínhamos apenas um Secretário de Estado da Cultura... pronto, agora voltamos a ter Ministério da Cultura. Ainda assim, é mínimo! É mínimo o dinheiro que se gasta em Cultura! E devíamos ter mais dinheiro, para termos mais condições! porque, o nosso problema não é falta de criatividade - como tu podes ver, nós criatividade temos! - , falta-nos, muitas vezes, é o meio e, esse meio, é dinheiro! É pura e simplesmente dinheiro...

AG: Achas que vamos lá chegar?
SJC: Eu acredito que sim! Quero acreditar que sim! Se não, damos já um tiro na cabeça os dois, e pronto, não vale a pena, não é?! Se achamos que nada vai mudar...

AG: Esse é o nosso sonho, que tudo melhore! Qual é a tua opinião, do estado actual, do movimento "Me Too", que existe nos Estados Unidos, em Portugal...
SJC: Acho tudo isso um folclore. Acho isso tudo um folclore. Acho que as coisas não se tratam assim... E há muitos homens a assediar mulheres, muitas mulheres a assediar homens. Aliás, o caso da Argento, que agora foi acusada de assediar um miúdo que contracenou com ela, de quem ela fez de mãe, que deu-lhe 300 mil dólares, para ele se calar. Isso é tudo tão ridículo! Acho que isso é tudo folclore. Isso é tudo um folclore!

AG: A respeito do mundo LGBT, até porque conheces muita gente (também LGBT), o que dizes a respeito deste universo, destas pessoas... Passámos a ter mais Direitos, desde o Governo de Sócrates... O que queres dizer sobre isto?
SJC: Épá, eu quero dizer que isto é tudo inevitável! Porque, para mim, há uma série de questões que as pessoas ainda discutem e, para mim, já não são discutíveis. O que se gosta, o que tu gostas, o que eu gosto, o que é que eu sou, o que é que não sou, sabes?! isso para mim não é discutível... Acho que as pessoas têm de ter os mesmos direitos, e o Amor é o Amor, independentemente de ser de uma mulher, ser de um homem, de é de um preto, se é de um branco, se é de um chinês, se é... sabes?! Se é de um rico, se é de um pobre... é-me indiferente! Há uma série de questões, que para mim, são dados adquiridos! Eu tenho um grande amigo, que conheci há pouco tempo, é um menino, que está na transição, nasceu uma menina, não é uma menina, está numa transição... felizmente ele tem uns pais fantásticos, tem uma família que o apoia, eu conheci-o há pouco tempo... e pá, eu adoro-o, é um rapaz incrível.. sabes, eu não tenho nada a dizer...

AG: Mas por exemplo, imagina, aquele rapaz, que está numa aldeia, num meio... e está a ler esta entrevista. O que é que tu lhe podes dizer? Ele está numa aldeia onde não há nada!...
SJC: Olha, quero dizer-lhe, para ele acreditar em si próprio, e ter muita força, porque todos nós temos de ter muita força, que a nossa vida é muito difícil! A cada um, o seu problema. Não estou a dizer que os problemas são todos os mesmos - que não são -, há problemas com níveis diferentes, sim, é verdade, mas... nós somos aquilo que queremos! Temos de acreditar nisso! Temos de acreditar noutra coisa também: as pessoas fazem de nós, aquilo que nós deixamos que elas façam! E esta frase é muito importante! As pessoas fazem de nós, aquilo que nós deixamos que elas façam, e não mais do que isso. Leiam esta frase, e pensem nesta frase, porque esta frase é muito importante - tem sido um lema na minha vida! E acredita, que a minha vida tem sido muito difícil - não te vou contar agora a minha vida [risos] -, mas a minha vida tem sido muito difícil... e isto é a pura da verdade! As pessoas fazem de nós, o que nós permitimos que elas façam. E somos todos especiais, à nossa maneira. Todos! Não há duas pessoas iguais! Somos únicos! Cada um, é único! E temos de acreditar nisso! É que temos mesmo!!

AG: Acho que já respondeste à minha última pergunta, que era: Que mensagem gostarias de deixar aos leitores, quer portugueses, quer estrangeiros, que estão a ler esta entrevista, que estão a ler este blogue... Que são gays, e que são heteros, e que são homens, e que são mulheres...!!
SJC: Olha, que amem! Amem o próximo! Amem o próximo e a si mesmos, a si próprios, a sério! O Amor, é a única salvação! O Amor, é a única salvação! Não há outra salvação, é o Amor!


Caso queiram falar comigo, também estou sempre disponível.
E-mail - adolescentegay92@gmail.com

Trailer de "Coração Revelador", de São José Correia, 2018.




Beijinhos e portem-se mal!! ;)